terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Assumindo

A primeira vez que eu contei pra alguém foi há mais de três anos. Eu não teria contado sem ela ter gritado (ela nunca gritava) “chega com essa enrolação que tu fez por um ano que tu tem um segredo. Tu quer contar, e hoje tu conta!”. Mas não saiu da minha boca, eu tive que escrever. Era o último dia de aula.

Pra surpresa geral, eu não tinha transtornos psicóticos ou era testemunha ocular de algum assassinato, eu só gostava de homem.

- Não, Tales, tu não é gay, eu te conheço, tu só ta confuso.

Quando eu contei pro meu primo era madrugada no quarto dele.

- Eu sou gay.

- Eu acho que eu ouvi um barulho na cozinha, eu vou lá ver.

Ele sempre soube fugir de conversa séria.

Minha amiga soube no gramado da escola.

- Precisa ser num lugar tão escondido, é tão sério o que tu tem pra contar?

- Talvez sim, talvez não.

- Então, Tales, fala de uma vez. Desembucha.

- Eu sou gay.

- Ta, Tales, agora fala sério.

- To dizendo, eu sou gay.

- Tales, eu vou ficar braba contigo se tu ficar se fazendo.

Outro "último dia de aula"

- Eu sou gay.

Tenho até hoje a foto que eu tirei na hora que eu contei pra ela. Ela ficou séria, depois riu, depois ficou séria de novo, depois gargalhou.

- Mas tu ficou com meninas! E a gente te conhece há anos, e nunca desconfiou! Meu pai achou que talvez tu fosse, e eu te defendi!

- É, eu acho que os pais sabem alguma coisa, afinal.

Eu adorava conversar na aula da sexta a noite:

- Tu disse que queria um amigo gay, não é?

- Sim.

- Eu sou teu amigo?

- Claro, Tales!

- ...

-...

- Então...

- ...

- Vai dizer que tu não entendeu!

- Se tu não disser, eu não entendo mesmo!

E a mais recente.

- A gente ta atrasado, Tales, vamos logo!

- Eu sou gay. Será que a gente perdeu o início do ensaio?

- Eu acho que não, todo mundo deve ta atrasado. Eu tenho dois amigos gays, tu é o terceiro. Na verdade, eles acabaram ficando. Onde será que a gente pega os convites?

E pensar que eu ficava nervoso pra contar!

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