quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Memento

- A gente já ta saindo pro velório. Aí se tu quiser ir junto...
- Eu não vou.
- A tua mãe vai ficar muito magoada, Tales. Significa muito pra uma pessoa numa hora dessas que...
- Eu já disse que não vou, pai.
- Mas, Tales. Vai ficar uma mancha no coração dela, ela nunca mais vai esquecer, e...
- Ta, pai. Fecha a porta quando sair.
- Isso é uma coisa que a gente não esquece, tu tá sendo uma grande decepção pra nós bem agora e...
- Até amanhã, pai.

Meia hora antes, eu chego em casa, minha mãe na cama. Abraço ela, o abraço é longo, e geralmente ela não dá abraços muito longos.
- Eu vou falar com o teu pai agora, pra ver se nós todos vamos no velório.
- Eu ia faltar minha aula de amanhã a noite mesmo. E a minha chefe ta de folga, ela nem vai notar que eu não vou ir.
- É... Mas eu tava pensando... tu podia ficar em casa, né.
- Pode ser também.

Duas horas antes.
- Que foi, Tales, que cara é essa? Quem era no telefone?
- Meu tio morreu. A gente ta atravessando a avenida, né? Me guia pra eu não ser atropelado.

Conclusões
- Meu pai é muito exagerado e teimoso. Mas eu sou mais.
- Eu não precisei fingir que eu gostava do meu tio.
- Minha amiga disse que seria chato ela ter que pegar o celular que tinha acabado de anunciar um falecimento pra mandar a notícia do meu, por atropelamento.

Eu só tive três experiências com morte na minha vida. Meu avô morreu quando eu tinha cinco anos e foi uma revelação descobrir que os mortos eram gelados. Na morte da minha prima de alguns meses, eu fiquei decepcionado por Deus não ter atendido meus pedidos. Quando o amigo do meu pai morreu, eu não reconheci aquele ser magro e branco que insistiam em dizer que era ele, e eu tinha doze anos então. Hoje eu tenho quase dezoito, e a morte tem o mesmo gosto.

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