sábado, 27 de dezembro de 2008
Tales goes 18
"Ah, eu não te dou presente de Natal porque eu vou te dar de aniversário, viu!"
"E daí, mão de vaca? Que sentido tem isso, hein?"
E como tem gente de aniversário em dezembro, hein? Acho que em março todo mundo tá no cio e sai fazendo filho.
Eu fico no cio em setembro... ah, primavera...
Sim, eu faço anos essa semana, obrigado. Foi-se a menoridade, agora o Tales virou homenzinho...
No dia do meu aniversário, na exata hora em que eu nasci, uma força do céu vai descer sobre mim e dizer "agora tu responde por ti mesmo, cara... se fudeu". E aí eu ganho maturidade e viro adulto. Legal, não?
Eu sei que já posso jogar minha autorização pra sair de noite no lixo, posso abrir ficha na locadora no meu nome e olhar filme adulto no cinema. Mas agora meus pais podem me expulsar de casa legalmente, também! Agora é que eu me finjo de hétero mesmo!
Será que eu volto aqui esse mês, ainda?
De qualquer forma, nem preciso desejar um bom ano, né? Porque 2009 vai ser demais, fato.
Só desejo ótimas festas no dia 31. Sem essa história de ficar em casa, de ocasião familiar já basta o Natal.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Crepúsculo
Ah, não gostei, achei decepcionante.Efeitos não convenceram, maquiagem forçada, a Bella tava sem graça, a Rosalie não tava legal. O Charlie ficou bacana.
E eu fui na estréia. Não devia ter ido. Só dava menininha gritando, menininha suspirando, menininha comparando a história do livro com a do filme.
Acho que vou voltar ler o "New Moon", que eu deixei pra trás no meio do semestre. Se valer apena, eu continuo.
Não sei se eu volto aqui antes do papai noel, então.
FELIZ NATAL!
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Assumindo
A primeira vez que eu contei pra alguém foi há mais de três anos. Eu não teria contado sem ela ter gritado (ela nunca gritava) “chega com essa enrolação que tu fez por um ano que tu tem um segredo. Tu quer contar, e hoje tu conta!”. Mas não saiu da minha boca, eu tive que escrever. Era o último dia de aula.
Pra surpresa geral, eu não tinha transtornos psicóticos ou era testemunha ocular de algum assassinato, eu só gostava de homem.
- Não, Tales, tu não é gay, eu te conheço, tu só ta confuso.
Quando eu contei pro meu primo era madrugada no quarto dele.
- Eu sou gay.
- Eu acho que eu ouvi um barulho na cozinha, eu vou lá ver.
Ele sempre soube fugir de conversa séria.
- Precisa ser num lugar tão escondido, é tão sério o que tu tem pra contar?
- Talvez sim, talvez não.
- Então, Tales, fala de uma vez. Desembucha.
- Eu sou gay.
- Ta, Tales, agora fala sério.
- To dizendo, eu sou gay.
- Tales, eu vou ficar braba contigo se tu ficar se fazendo.
- Eu sou gay.
Tenho até hoje a foto que eu tirei na hora que eu contei pra ela. Ela ficou séria, depois riu, depois ficou séria de novo, depois gargalhou.
- Mas tu ficou com meninas! E a gente te conhece há anos, e nunca desconfiou! Meu pai achou que talvez tu fosse, e eu te defendi!
- É, eu acho que os pais sabem alguma coisa, afinal.
Eu adorava conversar na aula da sexta a noite:
- Tu disse que queria um amigo gay, não é?
- Sim.
- Eu sou teu amigo?
- Claro, Tales!
- ...
-...
- Então...
- ...
- Vai dizer que tu não entendeu!
- Se tu não disser, eu não entendo mesmo!
E a mais recente.
- A gente ta atrasado, Tales, vamos logo!
- Eu sou gay. Será que a gente perdeu o início do ensaio?
- Eu acho que não, todo mundo deve ta atrasado. Eu tenho dois amigos gays, tu é o terceiro. Na verdade, eles acabaram ficando. Onde será que a gente pega os convites?
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
No consultório...

Acaba o semestre e o Tales vai correndo executar a lista de deveres acumulada. Comecei pelo dentista:
O meu radar e o MSN dele, que também fica piscando a consulta inteira no notebook.
Ele é gay, não é?
Ou os héteros também usam MSN no serviço?
Mas eu nem ouso falar muito com ele. Vai que ele não vai com a minha cara? Ele tem todas as ferramentas pra se vingar, não é não?
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Party
Aos dezessete anos, e fugiu de casa. Às setes horas da manhã do dia errado.
- Eu não quero saber em medida, Jú, mostra aí com a mão, quanto mede o dele?
- Ah, é mais ou menos assim, eu acho.
- Tudo isso? E tu coloca tudo isso na bocaa? Tu é guerreira, hein!
Um passo sem pensar, um outro dia, outro lugar.
- Um dia eu te envio umas conversas antigas de MSN, pode deixar. Tu ia ver como os gays são piores que os héteros. “Eu procuro alguém só pro sexo. Eu não preciso saber nada de ti, tu não precisa saber nada de mim”.
- Será que o cara queria uma venda pros olhos também, assim ele não precisava nem ver o teu rosto?
Cabelo verde, tatuagem no pescoço. Um rosto louco todo feito pro pecado.
- Será que ele vai gostar da camisola que eu comprei? Será que é sexy? Será que ele vai notar?
- Claro que vai, tu vai arrasar. Será que eu levo um soco se eu tentar beijar o de camisa preta.
- Tales, tu ta numa boate hétero!
- Brincadeira, ficar com alguém hoje seria traição.
- Na próxima eu te levo numa boate gay, então. Aí a gente vê se tu se controla.
- O mundo vai acabaaaaaaaar!
- E ela só quer dançaaaaaaar!
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Shortinho
- Cara, olha só aquilo. Meu pai do céu, Tales, olha aquela menina. Olha aquela bunda! No meu curso praticamente só tem cueca. Tem aula que tem uma ou duas meninas na sala, se muito. Mas geralmente é só homem, e nas aulas de tédio sempre tem pra onde olhar. Mas ficar cercado de gente que gosta de buceta sufoca!
- Onde, Marcos? Aquela do shortinho? Ô Nádia, vem cá, aquela do shortinho não é a tua amiga?
- Siiim! Peraí que eu chamo ela pra passear com nós. Samanthaaa!
15 minutos depois eu já to de papo com a tal da Samantha:
- Então tu fez técnico na mesma escola que eu? Que curso tu fez, mecânica? E tem menina na mecânica?
- Eiii! O curso que tu fez, também, dava pra contar os meninos nos dedos. Tu me acha com cara de lésbica?
- Depende, tu me acha com cara de gay?
- Marcoooos! Olha ele! Me diz: eu tenho cara de lésbica? Olha pra minha cara, e me diz se eu tenho cara de lésbica.
O Marcos suga a baba e fala meio abobado:
- Não. Claro que não.
Cara, eu acho tão divertido menina-hétero-que-acha-que-eu-sou-hétero. Porque a menina sempre acha que eu to babando por ela, e como eu não faço nada, ela geralmente fica dando corda pra “me provocar” e massagear o ego dela.
O ego massageado acaba sendo o meu, na verdade.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Banho de rio
- E tu, Tales. Já notou que eu faço 50?
- Ah, eu prefiro bem mais fazer 18...
De qualquer forma, não é todo dia que se faz meio século de vida, então final de semana foi dia de chamar toda a família (número não muito pequeno) pra encher a barriga comemorar.
E foi então que eu descubro que eu tenho mais primos que eu sabia. Desde a minha prima que ficou dando em cima de mim na cara dura o dia inteiro até o meu primo que resolveu "virar homem" em dois anos e valia a pena de se olhar.
- Ah, eu não acredito que tem um rio perto daqui, Tales. A gente vai ter que ir lá.
E a gente foi, né. Toda a cambada entre 14 e 24 anos tomando banho de rio. Água vai, água vem, e eu noto que o meu primo sorridente tava sem camisa, e eu me desconcentrei. A menina descarada aproveita meu momento de distração e pula em cima de mim:
- Me salva, Taleees! Eu vou me afogaar!
- Calma, menina. Assim quem se afoga sou eu!
Cara, me diz: o que tem na cabeça dela. Ela é minha prima! (ok, ok, contornável)
E ela tem catorze anos!
Mas aí eu me lembro que o carinha sem camisa que eu tava olhando também é meu primo. E também tem 14 anos. Ô familiazinha precoce!
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Batman

E já tão falando do Oscar. Cedo, né?
O chato é que a gente não pode nem dar palpite, porque em terras tupiniquins, se não apelar pros torrents da vida, a gente só vê os filmes duas semanas antes do Oscar, isso se der sorte.
Não esse ano: Eu vi o The Dark Knight faz tempo.
Quem será que vai receber o prêmio do Heath Ledger, hein?
Chama o Jake Gyllenhaal!
Brincadeirinha. Eu acredito na heterossexualidade deles (hahaha).
E quando é que sai o DVD do Batman, hein. Eu queroo!!
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Divagações no banheiro
Às vezes eu penso em esquecer os hormônios. Ignorar “a carne” e tentar me concentrar nas coisas “úteis” que o capitalismo me oferece. Eu digo pra mim mesmo: é só não pensar em homem, é só não olhar pra homem. É só. Aí eu, com todos os meus 17,9 anos de puro hormônio, vou ao banheiro (mijar!). Mas eu tenho pressa (só pra dar mais ênfase à história), e antes de entrar no box eu já vou desabotoando o jeans. E o que acontece? O box ta ocupado, e por pouco (maldito pouco!) eu não dou de cara (e outras coisinhas) no ocupante do vaso sanitário, de costas, prontinho.
Tem como esquecer homossexualidade assim? Acho que não...
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Emos, hormônios e o mundo perdido
Ela fala:
- Eu e umas amigas (lê-se biólogas entusiasmadas) discutindo. Aí a explicação geral é que os hormônios femininos expelidos no sangue da menstruação vão pra água, isso há gerações e gerações, e essa água cheia de hormônio feminino é bebida pelo homem.
Ok, uma coisa de cada vez, que biologia não é o meu forte. E o esperma que a gente solta na privada, não vai pra água também?
- Mas... vem na água? Não dá pra filtrar, ou algo assim?
- É.
- E por isso o mundo ta perdido. E a gente descobre ao notar a existência dos emos, ultimamente. A versão masculina do emo é muito feminina. A feminina tenta ficar parecida com a masculina. O emo é um ser hermafrodita. Não tem sexo, é impossível determinar. Se tu ver dois homens emo se beijando, tudo bem, são hermafroditas. Se tu ver duas mulheres também tudo bem. Hermafroditas. É por isso que o mundo ta perdido. Deus criou o universo, o homem e a mulher, cada um com seus hormônios, cada um com seu comportamento e tal. E lá pelas tantas as mulheres foram liberando os hormônios delas, que foram sendo ingeridos pelos homens, que foram ficando afeminados. E no final das contas, nós não vamos ter homens, vamos ter mulheres e emos!
- Coitadas das mulheres.
- É.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Honey, honey
Saí distribuindo sms final de semana, perguntando como é que escondia marca de chupão: - Passa base, Tales.
- Coloca gelo.
- Tu ainda tem aquele cachecol da Grifinória?
Meu método foi diferente: andar tentando mostrar só o perfil esquerdo, que era seguro. Mas teve o almoço de domingo, com muita gente, e muitos olhos detalhistas.
- Então o Tales ta NAMORANDO?! – grita minha irmã pra todos ouvirem.
- Eu? Ué, porque? - Eu sabia exatamente do que ela tava falando.
- Ah, então tu vai me dizer que tu não viu essas coisas vermelhas no teu pescoço?
- Ah, é. Eu tava vendo ontem de manhã, acho que foi um bicho ou coisa assim.
- Só se for o bicho-mulher. – solta meu pai.
- Ou o bicho homem – não, eu não disse, mas que tava na ponta da língua, tava.
Enfim, vale a pena ver "Mamma Mia!" pela quarta vez, se dá pra beijar com "Gimme! Gimme! Gimme!" de trilha sonora.
=]
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Sobre um cara chorão

O Tales pré-adolescente não chorava nunca. O Tales pré-adolescente (ô fasezinha que dá raiva) não se permitia sentir nada que fosse original, que não fosse o que estivesse na moda. O Tales adolescente era um fake, uma tentativa de cópia dos coleguinhas pop dele.
O Tales adolescente não tinha sentimentos. O Tales adolescente exercia sua masculinidade sentimental ao extremo, e não via a menor dificuldade nisso. Só ficava perdido quando alguém chorava perto dele, porque o choro era uma coisa que ele não entendia.
Foi nessa quinta-feira (nem tão pesada assim). Eu tenho que admitir: o Tales chorou de verdade, como nunca havia chorado.
Já olhou o filme C.R.A.Z.Y.? Pois é.
E não foi uma cena só do filme. Não foi uma só mensagem, ou uma história. Eu to falando do filme inteiro. Chorei de fazer barulho, chorei de trancar o nariz. Chorei de ir embaixo das cobertas pra chorar.
Não preciso dizer que o filme tem a minha alma, né? Até porque deve ter a alma de muita gente. Não preciso dizer que eu vivi muitas das cenas do filme e ainda vou viver tantas mais que estão lá. Não preciso dizer que ta pra ser feito o filme que vai mexer tanto assim comigo.
Era o filme certo na hora certa. E isso não acontece todo dia.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
MD e ME

- Vou te mandar o arquivo por MSN, ta?
- Não dá, cara. É que eu to usando MSN de site, aí não dá pra receber arquivos. Me passa por e-mail, ou eu te passo o meu pen-drive.
Somos em três na sala em que eu trabalho. Tem eu, o moço da direita (MD), e o moço da esquerda(ME).
- Mas porque tu não usa o MSN que tu tem instalado.
- Sei lá... Me passa o arquivo logo.
- Ei, mas tu ta logado no MSN! Porque tu logou duas vezes?
Os computadores são inclinados, e eu só consigo ver o monitor do moço da direita. Já o moço da esquerda vê os dois monitores, o meu e o do moço da direita (o que pra ele é muito conveniente).
- ... É que eu to usando dois nicks.
- E porque tu ta usando dois nicks, hein?
- Ããh... é que eu separo os contatos em dois grupos, um pra cada MSN. (MSN fake, dãã!)
- Como assim?
Eu tava me entregando. Tentei falar qualquer bobagem pra não ficar tão óbvio.
- Sei lá, MD! Um é pras pessoas chatas e um pras legais. Quando eu to de mau-humor, eu só abro o das pessoas legais.
- E eu to em qual, posso saber?
- Epa, a gente ta no que ele usa no site, o secundário. Deve ser o das pessoas chatas! – solta o MD, tirando os fones.
- Não é separado por pessoas chatas e legais, são só pessoas diferentes, papos diferentes.
- Ah, ta, a gente não é chato, tu só não quer se mostrar online pra nós. Hahaha...
- Quer saber? Eu vou me logar no MSN convencional e tu me manda o bendito arquivo, beleza?
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Entre High School e 007...
Filme do 007 é filme do 007 e ponto. Montes de cenas de cair o queixo, ação bacana, mas a gente entra na sessão esperando um filme do Bond, James Bond, e sai de lá com isso mesmo. Sem surpresas. Já eu comprei o ingresso pro Quantum of Solace sem saber como ia ser lá dentro. Não o filme, que é tão bom quanto o último, nada de mais. Mas sim o que ia acontecer na sala do cinema, mas especificamente entre a minha poltrona e a do Sony.
Eu me senti à vontade com ele logo de cara, mas é falta de educação não prestar atenção ao filme (aeaehae). Aí eu pensei: vamos deixar pro clímax! Até lá eu já entendi todo o filme, e posso aproveitar mais a vida real. Clímax de 007 é intenso e emocionante, e beijo requer intensidade e emoção (isso sem falar que as pessoas olham pra tela e não pros dois caras se pegando na poltrona ao lado).
Mas eu tive que deixar o clímax passar, porque não rolou se animar pra beijo vendo a mocinha dar facadas vingativas no cara que matou a família dela. O Daniel Craig matou os vilões que ainda tavam vivos e tava pronto pra beijar a tal mocinha vingativa. Sem procurar mais desculpas de somos-amigos-estou-precipitando-as-coisas, dei o primeiro passo. Ele deu o segundo. E a gente deu junto o terceiro. E aí a gente não queria mais saber como o filme acabava.
Mas uma hora as luzes sempre se acendem, e os gays discretos são obrigados a se desgrudarem e voltarem ao mundinho hétero e real lá de fora.
Mas não é só de beijos que é feito um relacionamento, né? E papo foi o que não faltou pro resto da tarde.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Realismo na infância
Comprei uma escova da Colgate com limpador de língua. É uma porcaria, porque tem que escovar com a boca aberta, pro plástico “áspero” da escova não machucar o dente. Mas aquela propaganda fica repetindo, e repetindo. Acabei comprando.
- Ela não vai crescer, ela vai pro lixo.
Meu irmão puxou a mim, cara! Ele tem sete anos e solta uma dessas na maior expontaneidade. Quer realismo maior que esse? Tenta esse então, quando eu fui tentar falar sobre a morte do meu tio com ele:
- Já te explicaram sobre o tio? Eu fico preocupado porque tu se dava muito bem com ele...
- Eu só nunca mais vou ver ele, né? Me ajuda a terminar o desenho?
E eu achava que eu era precoce na idade dele!
Domino's Techno Chicken
http://www.youtube.com/watch?v=OvZrhdy2UdY
Aliás, alguém sabe como fazer pro vídeo aparecer aqui na página mesmo, sem precisar clicar no link?
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Memento
- A gente já ta saindo pro velório. Aí se tu quiser ir junto...- Eu não vou.
- A tua mãe vai ficar muito magoada, Tales. Significa muito pra uma pessoa numa hora dessas que...
- Eu já disse que não vou, pai.
- Mas, Tales. Vai ficar uma mancha no coração dela, ela nunca mais vai esquecer, e...
- Ta, pai. Fecha a porta quando sair.
- Isso é uma coisa que a gente não esquece, tu tá sendo uma grande decepção pra nós bem agora e...
- Até amanhã, pai.
Meia hora antes, eu chego em casa, minha mãe na cama. Abraço ela, o abraço é longo, e geralmente ela não dá abraços muito longos.
- Eu vou falar com o teu pai agora, pra ver se nós todos vamos no velório.
- Eu ia faltar minha aula de amanhã a noite mesmo. E a minha chefe ta de folga, ela nem vai notar que eu não vou ir.
- É... Mas eu tava pensando... tu podia ficar em casa, né.
- Pode ser também.
Duas horas antes.
- Que foi, Tales, que cara é essa? Quem era no telefone?
- Meu tio morreu. A gente ta atravessando a avenida, né? Me guia pra eu não ser atropelado.
Conclusões
- Meu pai é muito exagerado e teimoso. Mas eu sou mais.
- Eu não precisei fingir que eu gostava do meu tio.
- Minha amiga disse que seria chato ela ter que pegar o celular que tinha acabado de anunciar um falecimento pra mandar a notícia do meu, por atropelamento.
Eu só tive três experiências com morte na minha vida. Meu avô morreu quando eu tinha cinco anos e foi uma revelação descobrir que os mortos eram gelados. Na morte da minha prima de alguns meses, eu fiquei decepcionado por Deus não ter atendido meus pedidos. Quando o amigo do meu pai morreu, eu não reconheci aquele ser magro e branco que insistiam em dizer que era ele, e eu tinha doze anos então. Hoje eu tenho quase dezoito, e a morte tem o mesmo gosto.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Esse "amigo"
- Tales, mas tu sai largando teu perfil do orkut por aí assim, na maior cara de pau? Tu não tem medo que te descubram?
- Ah, não é bem assim, né cara? Quando eu converso com o cara um tempão, quando eu viro amigo do cara, aí eu mostro.
- Mas tu não tem medo de possam te descobrir?
- Meu! Mas se eu for pensar assim, eu vou ficar trancado no meu quarto e nunca vou viver nada.
Ele parou uns cinco segundos pra pensar. Ele NUNCA concorda comigo, nunca admite que eu to certo.
- Verdade. É isso mesmo. Tu ta certo.
Eu literalmente abri a boca, pasmo. É que eu sei que ele teve experiências não muito legais com gente na net.
Mas dá tempo pro garoto se descobrir.
E pra mim também.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Começando
O Tales tem 17 anos beirando a 18, mora no estado mais ao sul do país, faz faculdade e freqüenta vinte horas por semana um local que costumam chamar de “trabalho”.
Adora filme de drama, música boa, amizade recíproca, beijo na boca e pizza de chocolate branco.
Não gosta de não poder ter razão sempre, de dormir menos de oito horas e de censura.
Quer conhecer muita gente, aprender um pouco mais todo dia, arrumar um namorado, ser no mínimo trilíngüe e ganhar mais de cinco mil por mês
Não quer ter de abandonar qualquer tipo de paixão por outra, não quer trabalhar tanto que o impeça de viver, não pretende envelhecer sozinho e não quer ganhar na mega-sena.
É espontâneo, feliz rindo ou não, amigo, preguiçoso e sortudo.
Não é bom desenhista, nem músico, nem tem qualquer habilidade artística especial.
Esse é o Tales que eu vejo no espelho.
